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Há muita eletricidade em mim

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Ao ler esse poema do Otto me veio imediatamente a palavra tédio. Mentira, a primeira coisa que veio foi “em mim também”, a segunda coisa foi “então porque me sinto assim?”, a terceira foi “você ainda tem dificuldade de viver o tédio”, a quarta coisa rebateu “Ju, você precisa aprender a viver os vazio” e só na quinta coisa foi que me veio à mente “tédio” em letras garrafais e neon. Essa palavra me remete a algo ruim, tempo perdido, desperdício de algo que pode(ria) ser incrível. Negar o tédio gera ansiedade ao passarmos muito tempo pensando com como preencher esse vazio e, quando nosso corpo pede descanso e nossa mente implora pra permanecermos no tédio, inconformados com essas exigências, dormimos.  Porque, se não conseguimos fazer nada durante esses mortíferos vazios, vamos apagar, assim não sentimos e não vemos esse tempo dedicado ao nada, passar. E logo surge uma necessidade qualquer que nos obriga a sair desse estado e a agir: fazer comida, lavar a louça, trabalhar, conversar e...

Leia-me

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Faz tempo que não escrevo. Bem, para os meus moldes, faz tempo. Escrever é uma das minhas mais delicadas linguagens, tanto para comigo, quanto para quem presenteio ou mesmo para quem nem me conhece e tem alguma curiosidade para me ler. Me ler. Isso é melhor que um “te amo”. Te amo é falado de qualquer modo, vira lugar comum, expressão corriqueira para demonstrar um sentimento que está posto – e nem por isso tem menos valor. Mas “me ler” tem um significado muito mais profundo em minhas emoções. Assim como substituir o “tchau” por um “te amo” pode ser algo banal, alguém pode me ler e não entender, não assimilar, não prestar a menor atenção. Mas quando alguém me lê e compreende o dito, o não dito, as entrelinhas, as métricas, o caps lock, o sussurro, não importa, porque quando alguém me lê eu me sinto contemplada. Tudo bem se for apenas um ego que gosta de afago (e qual não gosta?!), tudo bem se a leitura se resumir a um capitulo, uma página, uma frase, uma palavra. Não é uma questão ...

Oxitocina

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Hoje é um daqueles dias que eu não queria estar sozinha. Hoje eu precisava chegar em casa e ter conforto, um abraço quente, uma comida quente, um cafuné e uma fala dizendo “tá tudo bem” seguida de silêncio. Hoje é um daqueles dias que seria preciso apenas estar, sem qualquer outro tipo de ação. Quem me vê não imagina o tamanho da minha fragilidade, não tem noção do quanto sou sensível e do quanto também preciso de cuidados. Ao longo dos meus anos de vida eu busquei esses confortos em colos despreparados, em companhias rasas e vazias, em pequenos vícios, em amizades fugazes, até que depois de muito tempo, encontrei o colo em mim mesma. Não como alguém isolado e autossuficiente, mas como alguém que compreende suas próprias forças e fraquezas e que aprendeu a lidar com cada uma delas. A gente não pode confundir autoconhecimento com autossuficiência. Nós somos seres relacionais, nossa sobrevivência ancestral é em bando e o isolamento é uma das ferramentas para a extinção da humanidade,...

Detox Digital

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Coisa mais estranha é abrir o word para escrever minhas coisas e me deparar com três opções de textos para redigir que o Copilot , com base nos meus últimos arquivos, sugere. Sem contar com esse símbolo que fica ao lado de cada parágrafo, para que eu possa corrigir ou melhorar meu texto. Eu ando muito cansada de tanta interferência em atividades que eram pra ser prazerosas. Entendo a agilidade da IA na elaboração de textos técnicos e corporativos, que exigem uma métrica idêntica, tem um regramento para seguir e ela organiza isso pra gente, mas não me agrada a interferência em nossas ideias, em nosso jeito de escrever, no sentimento que queremos passar por meio de algo tão único como a linguagem. Sim, a linguagem é única e universal ao mesmo tempo. Não é bonito isso?! De uma coisa poder ser tantas e tão pouca ao mesmo tempo?! E vem a IA e quer se apoderar disso também? Bem, não sou tão ingênua assim pra achar que os robôs invadiram nossas vidas e estamos cada vez mais próximos de vi...

Eu só existo no olhar do outro?

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Fiz análise por muito anos. Foram várias as fases da minha vida em que senti a necessidade de ter esse suporte para me apoiar a atravessar tempestades e maremotos, mas recentemente eu optei por pausar. Foi uma pausa “consensual”, no sentido de que minha analista já vinha fazendo esse convite, de que eu estava em boas condições psíquicas de lidar com as questões da minha vida. Desde que ela sinalizou isso, levei ainda uns 3 meses pra admitir que sim, que eu também queria viver comigo mesma, pois já não sentia a necessidade constante de ter um apoio além de mim mesma. E assim tem sido nos últimos 2 meses. Está sendo uma experiência bem nova e muito reconfortante essa de viver sabendo as decisões que tomar. Opa, vou corrigir essa fala. Sabendo não, simplesmente tomando as decisões, mas sem a insegurança tremenda se o que estou fazendo é certo ou errado. Tomo a decisão e tenho tido a segurança de me sentir à vontade com a consequência. Às vezes dá super certo, às vezes machuca, mas nenhuma...

Minha segunda percepção sobre o filme Baby Girl

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A primeira vez que vi o filme “Baby Girl” foi no cinema e eu me senti mal do começo ao fim. O filme se mostrou ruim, péssimo, com atores fantásticos interpretando papeis medíocres, com uma mulher sendo objetificada ao mesmo tempo que emula comportamentos masculinos de poder, inclusive, sobre outra mulher. Uma estereotipação dos gêneros, colocando o marido em lugar de “corno manso”, se no Brasil fosse, e o jovem Mucilon exercendo um poder sobre esta mulher madura, independente e “dona da porra toda”, fortalecendo mais uma vez a imagem de que a mulher se perde sempre que encontra um homem que a domine, como se somente assim ela se sentisse completa. Paralelamente ao filme, neste momento, minha vida estava passando por um vácuo de relacionamentos afetivos, em que eu nem sabia se meu corpo sabia o que fazer ao estar próximo de outro corpo. Eu estava vivendo para o trabalho e para as atividades do cotidiano, curando uma relação difícil que havia se rompido há meses, mas que ainda não havi...

O amor em mim não faz morada

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arte: @pulpbrother Às vezes me sinto um caminho para o amor Para o amor passar e não ficar   Às vezes me sinto um caminho para o amor Para o amor chegar e pousar e se demorar Para o amor visitar e se hospedar Em temporadas: Dias Semanas Meses Anos Mas ele se vai do mesmo jeito que chegou Ele passa   O amor em mim não faz morada O amor em mim já é morada É uma casa térrea em um terreno sem muros Com cheiro de café fresco, bolo quentinho e grama molhada   O amor que em mim é morada Recebe Aquece Ferve Acalanta Mas ele amorna, esfria e não fica   O amor em mim não faz morada Porque ele se esgota em cada temporada Porque eu não amo a conta gotas Eu amo de inundação De cachoeira De corredeira Eu amo inteira  

Sábado de noite

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Sábado de noite, longe dos perigos noturnos, como diz uma amiga, pijaminha, hidratada, alimentada e segura. Segura de mim, segura do mundo, me sentindo em paz. Tenho pensado muito sobre meu estado de saúde mental e física que, pela primeira vez ao longo desses anos de vida, tem estado em paz. Parece quase um pecado dizer isso aos outros ou escrever de maneira pública, mesmo que tenham menos de seis pessoas me lendo. Estar em paz é uma frase que sempre me lembra a música do Los Hermanos e que aumenta esta sensação. Tem sido curioso comentar com meus amigos, mesmo os mais íntimos, sobre esse meu momento. Invariavelmente recebo um retorno sobre “nossa, ainda não consegui essa elevação”, ou algo assim:  “também, tá com a vida ganha!” (a intimidade às vezes pode ser cruel) e algumas clássicas como “é, né, sem filho pequeno e marido até eu fico em paz”. É engraçado como a gente tem dificuldade de escutar o outro e simplesmente aceitar o que se diz. Sem fazer juízo de valor. Eu sinto...

O que tem depois do fim?

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Nos últimos três dias eu passei lendo meu caderno de memórias. Tenho vários cadernos de memórias guardados, desde os meus vinte e poucos anos. Vez ou outra gosto de reler coisas antigas pra me (re)conhecer e identificar o que permanece e o que mudou. Às vezes dou risada com algumas preocupações da época e outras eu percebo o quão madura ou em estado de sofrimento eu já estive. Mas esse caderno de reli é mais recente. Lembro de quando comprei e de quando escrevi meus primeiros sentimentos. Foi em Julho de 2023. Eu sabia que minha vida mudaria muito dali pra frente e, como já virou um ritual meu, fui até o mar. Lembro que desci pro litoral paulista uma da tarde apenas com a roupa do corpo, uma ecobag com documentos, celular, carregador, o caderno e uma caneta. Estava um frio paulista cortante. Tirei os sapatos, pisei na areia, pedi uma cerveja e uma porção de peixe empanado. Fiquei olhando para o mar, para aquele dia que tinha um sol tímido e um vento cortante espirrando areia no meu ros...

O Sol não pode viver perto da Lua?

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Que mulher complexa sou eu! Um dia estou sofrendo, triste e querendo me ver dentro de uma ostra bem no fundo do oceano longe das garras humanas e no outro estou cantante, brincando de sereia que seduz e encanta. Não é nada fácil andar pela vida passando por tantos picos e vales. É sofrido, deixa minha cabeça maluquinha ao mesmo tempo que me impulsiona para fazer tantas coisas legais, tantas coisas que me fazem bem. Desconfio que toda essa labilidade é mais um modo de vida que um descompasso. Enquanto os picos me servem pra que eu acredite em mim e tenha certeza das minhas capacidades e os alcances que posso ter na vida, os vales me lembram que as vezes as pausas são necessárias. Eu sou apaixonada por mim quando estou no pico. Me sinto viva, animada, bonita, empolgada e empolgante. Quero viver, quero fazer, quero acontecer. Minha vida fica em pleno período fértil em noite de lua cheia. Mas também não nego que gosto quando estou no vale. Costumam ser meus momentos de escrita mais impor...

Primeiras vezes

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Sempre tem uma primeira vez E as primeiras vezes são marcantes demais A primeira vez que andamos A primeira vez que falamos A primeira vez da bicicleta sem rodinha  A primeira vez na escola sozinhas O primeiro bilhetinho de amor A primeira vez dormindo na casa da amiga O primeiro beijo no menino mais popular O primeiro beijo no menino mais esquisito  Primeiras vezes dão frio na barriga A ansiedade da inauguração  A alegria do momento presente A esperança de que a segunda vez não seja uma ilusão  Mas primeiras vezes também podem doer Entristecer e cria traumas  Nos protege (ou defende?) de outras primeiras vezes Que poderiam acontecer Viver é arriscar-se  Nessa onda gigante de primeiras vezes Sabendo que pode surfar Sabendo que pode afundar  O equilíbrio e o tom É você quem dá 

Bruta flor do querer

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O amor é essa coisa que inicialmente acontece e que com o passar dos dias pede uma intencionalidade, uma vontade, um querer, uma atitude e assim se segue, numa construção diária de possibilidades, do inexplicável e da curiosidade em saber o que vai acontecer no dia seguinte, para onde esse instinto irá nos levar. O paradoxo, ao meu ver, é que o amor também é segurança, previsibilidade e até mesmo uma aparente monotonia, nos momentos em que o corpo não está tão quente e vibrante, mas morno o suficiente para trazer uma sensação agradável de aconchego. O amor não está presente quando há brigas, inseguranças e desconfianças, mas esses momentos acontecem em um relacionamento e isso quer dizer que, durante o amor, há momentos de desamor, e é essa dualidade que bagunça a minha cabeca, por vezes infantil, de que devemos viver tudo com tanta intensidade que não deveria existir espaço para o desamor . Mas eu também tenho compreendido que os momentos de desamor nos afasta do amado, mas nos aproxi...

Eu sonho tanto

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Eu sonho tanto. Eu acredito tanto nos meus sonhos. Tenho sonhos lúcidos. Tenho sonhos reais. Tenho sonhos malucos. Tenho sonhos sonhos. Tenho sonhos horríveis. Eu sonho tanto. Já sonhei que eu era um verme e rastejava no chão. Já sonhei que eu era uma espécie de cavaleiro da távola redonda e recebi uma espécie de benção dentro de um castelo com alguém importante tocando o topo da minha cabeça com uma espada reluzente. Sonhei que passava por um portal no meio da floresta, com um monte de velhas sentadas bem na entrada, como se fossem as saudosas velhas fofoqueiras das vilas das cidades e tinham muitas mandalas dos sonhos penduradas nessa entrada que se misturavam com os galhos das árvores e me convidavam a entrar em um lugar inesperado. Sonhei que fui sequestrada por um anjo muito muito muito reluzente, com olhos cor de mar do caribe que me conduziu em uma viagem astral inesquecível. Sonhei que andava em uma espécie de trem voador pelo espaço e que tinha um motorista bem magrinho careca...