Minha segunda percepção sobre o filme Baby Girl

A primeira vez que vi o filme “Baby Girl” foi no cinema e eu me senti mal do começo ao fim. O filme se mostrou ruim, péssimo, com atores fantásticos interpretando papeis medíocres, com uma mulher sendo objetificada ao mesmo tempo que emula comportamentos masculinos de poder, inclusive, sobre outra mulher. Uma estereotipação dos gêneros, colocando o marido em lugar de “corno manso”, se no Brasil fosse, e o jovem Mucilon exercendo um poder sobre esta mulher madura, independente e “dona da porra toda”, fortalecendo mais uma vez a imagem de que a mulher se perde sempre que encontra um homem que a domine, como se somente assim ela se sentisse completa.

Paralelamente ao filme, neste momento, minha vida estava passando por um vácuo de relacionamentos afetivos, em que eu nem sabia se meu corpo sabia o que fazer ao estar próximo de outro corpo. Eu estava vivendo para o trabalho e para as atividades do cotidiano, curando uma relação difícil que havia se rompido há meses, mas que ainda não havia cicatrizado devidamente.

Corta para algumas semanas atrás quando resolvi reassisti ao filme, disponível agora em plataforma streaming e fiquei surpresa da primeira à ultima cena. Parecia que eu estava vendo pela primeira vez. Enxerguei uma perspectiva completamente diferente sobre o papel de uma mulher poderosa, “dona da porra toda”, inteligente, da área de tecnologia e inovação, vaidosa, dona do próprio corpo, da própria agenda e que, ainda assim, parece cumprir com prazer alguns papeis socialmente atribuídos ao gênero feminino: fazer a lancheira dos filhos, organizar festa das crianças, servir o marido no café da manhã, manter uma atividade sexual ruim com ele só para satisfazê-lo, usar um avental enquanto está na cozinha. Aliás, essa cena é muito rápida e muito simbólica: O marido a critica sobre o uso do avental, como se fosse uma empatia do homem para com a mulher, que esse uniforme a diminuiria e ele admira a mulher foda que está ao seu lado. Ela, cumprindo muito bem a performance de esposa dedicada, dá um sorriso singelo, continua com o avental e senta-se à mesa para tomar o café da manhã em família.

Depois a gente vê uma mulher vestida como uma executiva muito poderosa e impositiva, cuidando da sua pele e dando alguma cor sutil em seu rosto, com maquiagens suaves que transmitem saúde sem qualquer traço de vulgaridade. Ela chega em seu escritório imponente e começa a trabalhar, até que o jovem estagiário, um Mucilon, a desafia. Na verdade ele a desafia muito antes dela entrar em seu escritório, mas não vou me apegar a cada etapa do filme.

Acontece que os desdobramentos do romance que eles começam e que é todo pautado na relação de poder e submissão de um para o outro (nesse caso de um homem para uma mulher – fator que me incomodou um bocado, mesmo na segunda vez que assisti) saltaram em meus olhos sob uma nova ótica: a autonomia da mulher sobre o seu próprio prazer.

Em várias cenas a personagem de Nicole Kidman demonstra uma tremenda insatisfação com sua vida íntima, faltando prazer em seu dia-a-dia, mesmo que ela se sinta satisfeita com as conquistas, com sua posição profissional e com sua vida doméstica aparentemente perfeita, mas em seu semblante fica nítida a sensação de falta que sente. Falta de ação, de criatividade, de se sentir verdadeira consigo mesma por meio do prazer. E o jovem Mucilon aparece como o grande propulsor de uma descoberta dela sobre ela mesma que estava bem guardadinho em algum canto de sua psiquê.

A atitude altiva, firme e segura desse jovem faz com que ela se sinta vulnerável, insegura e ao mesmo tempo excitada por compartilhar momentos com alguém que a enxerga "como fêmea" (muito entre aspas) e sem julgamentos. E, por este motivo, ela se entrega à submissão sexual em um ambiente seguro e privativo, em que ela sente que pode expressar seus desejos mais íntimos e gozar livremente por vivenciá-los. Ali que juntou a fome com a vontade de comer, literalmente.

Ela tinha fome, muita fome de prazer, traço comum a maior parte das mulheres do mundo. Em uma sociedade que sempre nos fecha as portas e, quando as abre, nos obriga a provar nosso valor e competência o tempo todo, fazendo-nos sentir inseguras e submissas aos caprichos corporativistas masculinos, ela venceu. Ela conquistou seu lugar, se fez respeitar e ser admirada por todos, com um comportamento profissional e pessoal de natureza ilibada.

E como ela alcançou tudo o que era esperado: fama, poder, família, casa, carros e uma empresa poderosa com muitos empregados, a sensação de falta surge e ocupa um espaço muito grande na sua vida. E, como se fosse uma afronta a si mesma, ela se permite, no âmbito privado da sexualidade, ser completamente o oposto do que se tornou na vida pública. É quando ela admite para si que pode e que sente prazer ao ser subjugada, diminuída, dominada, tratada de forma domesticada, como um cão amável, mesmo que seja tratado com rispidez. E envolta a tudo isso, a essa entrega ao corpo jovem, másculo, equilibrado e sensual de seu estagiário dominador, ela se entrega e finalmente se sente poderosa em seu prazer sexual. Ela está tão satisfeita com essa posição que, na cena mais sexy do filme todo, em que ele dança uma música cafona do George Michael em sua frente, ela está sentada em uma poltrona, altiva, com uma cara de tesão e poder, de conquista, de domínio daquele território, daquele corpo que se exibe em sua frente e para si. Ela goza sobre próprio domínio de seus desejos.

O filme demonstrou tudo o que uma mulher sente, mas que não exerce, tudo o que acontece em seu íntimo e que não é permitido que leve à publico. Ela se sente minimamente completa todas as vezes em que se sente desafiada e ameaçada pelo estagiário, pois isso mexe na sua estrutura solidificada de mulher perfeita que deu certo e, ao mesmo tempo que assusta, a excita.

Paralelamente a esse meu segundo olhar para o filme, minha vida tinha tomado um rumo completamente diferente do outro momento. Eu já sabia como meu corpo estava confortável em estar em contato com outro corpo, minha mente estava livre de memórias do passado e eu tinha voltado a ser uma mulher autônoma e realizada, como fui tantas vezes, antes de entrar no jogo da performance social dos relacionamentos.

Me dei conta sobre a importância do nosso contexto de vida ao nos depararmos com alguma situação, seja por meio da arte, como num filme, seja nos acontecimentos cotidianos, sociais e políticos. Enxergar a si é uma das lições mais importantes que uma pessoa pode aprender, pois é a partir dessa visão, dessa descoberta, que podemos olhar para tudo ao nosso redor sem o véu do moralismo, do julgamento do certo e errado e da autocrítica.

Hoje eu concluo que esse filme é uma grande representação dos limites que ainda circundam a mulher, principalmente quando se refere a manifestação de seu prazer, seu gozo, sua criação, sua atitude, seu posicionamento. Uma mulher não goza apenas sexualmente, ela goza todas as vezes que se sente confortável em seu espaço, em suas decisões e com suas escolhas. Ter a possibilidade de escolher exercer o papel da mãe, da esposa, da gestora de um lar ou de ser a CEO da maior empresa de tecnologia do mundo e, assim, poder realizar suas fantasias que extrapolam o ambiente público e se voltam para o privado, ou melhor, privativo, é um poder absoluto que nosso gênero pode alcançar na atualidade.

O prazer de uma mulher ainda é visto como promíscuo, pois os homens sabem bem do que uma mulher que goza é capaz de fazer e esse é um dos motivos que fazer perpetuar a misoginia. Quero concluir esse meu pensamento alto com um trecho da música da Flaira Ferro que ouço todas as vezes que me autorizo a gozar a vida:

“Não tem coisa mais bonita

Nem coisa mais poderosa

Do que uma mulher que brilha

Do que uma mulher que goza

Toda mulher que deseja

Acende a força erótica que excita a criação

Dê suporte à mulher forte

Quem sabe a gente muda a nossa sorte

Toda mulher que se toca

Instiga a auto estima, estimula o botão

Mesmo que o mundo se choque

O clitóris é antídoto pra morte

(...)

Cê tá maluco ou entorpecido

Pela falsa idéia de dominação

Cê tá esquecido, mulher sem libido

Não tem natureza vira papelão

Homem de armadura constrói prisão bélica

De postura fálica perde o coração

Homem de verdade enxerga a beleza

Na mulher que é dona do próprio tesão

(...)

Na mulher que é dona do próprio não”

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